domingo, 24 de Janeiro de 2010

Mosteiro dos Jerónimos - visita virtual




Muito interessante. Entre por aqui,se faz favor.

Imagem: Mosteiro dos Jerónimos nos primeiros anos do século XVIII. Biblioteca Nacional, Iconografia, E979A.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Futebol com História (IV) - Sport Clube Império


O Sport Clube Império é hoje em dia desconhecido da maioria dos aficionados do futebol. O clube esteve ligado aos primórdios do popular desporto em Portugal, tendo disputado o Campeonato de Lisboa entre as épocas de 1910-11 e 1927-28 (com uma interrupção na época de 1924-25, em que não participou). Nunca obteve classificações brilhantes - quedou-se algumas vezes pelo 3º lugar da tabela, sempre atrás do S. L. Benfica e do Sporting C. P., mas num período em que o quadro de competidores era bastante reduzido: entre três a sete clubes, apenas. Na época de 1917-18, por exemplo, o terceiro lugar do S. C. Império correspondeu ao último da tabela! Eram tempos difíceis, devido aos problemas económicos gerados pela Primeira Guerra Mundial, e não havia grande disponibilidade financeira para suportar uma competição mais alargada, numa altura em que o futebol era totalmente amador.

O pós-guerra foi o período menos feliz do S. C. Império. O número de clubes que disputava o Campeonato de Lisboa foi aumentando gradualmente durante a década de 20 do século XX, e nesses tempos o Império nunca conseguiu melhor do que o penúltimo lugar, acabando frequentemente na posição do "lanterna vermelha". Aparentemente, o clube terá terminado ainda antes da década de 30, pois o último campeonato que disputou foi o de 1927-28.

O nome da agremiação - Império - remonta a um período em que o termo não tinha ainda a conotação negativa que hoje carrega. Pelo contrário, as nações europeias, na ilusão da superioridade da sua civilização sobre o resto do mundo, encaravam nessa altura os domínios imperiais - sob a forma de colónias ou de outro tipo de dominação territorial - como expressão natural do seu poder. A Primeira Guerra Mundial não chegara a abalar essa presunção, se bem que tenha terminado com o domínio comercial e financeiro da Europa industrializada sobre o resto do mundo. Somente após a Segunda Guerra Mundial (1939-45) o imperialismo - e logo, o próprio termo Império - veio a assumir uma conotação negativa, símbolo da exploração sofrida pelos povos de África, Ásia e América às mãos dos colonizadores europeus. Portugal foi, de certo modo, uma excepção, pois manteve até 1975 as suas colónias em África, se bem que a ditadura do Estado Novo tivesse entretanto mudado a designação oficial para províncias ultramarinas.

Como facto curioso (e para voltar ao futebol), registe-se que o Sport Clube Império começou a competir oficialmente com o raiar da República em 1910 e deixou de competir (e provavelmente extinguiu-se) em 1928, o ano em que António de Oliveira Salazar iniciou a sua ascensão política, para se tornar a breve trecho ditador.

A gravura acima inclusa mostra o habitual equipamento auri-negro do S. C. Império. Trata-se de um cromo da década de 40, de uma colecção sobre os clubes que eram então, ou tinham sido anteriormente, membros da Associação de Futebol de Lisboa. O S. C. Império foi um dos sócios fundadores da AFL, surgida a 23 de Setembro de 1910 - ainda no tempo da Monarquia, portanto.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

O que se vendia num mercado medieval?

As feiras medievais, recriadas com um maior ou menor grau de fiabilidade e rigor, são um tema cada vez mais popular nas sessões de "história ao vivo". O trabalho de investigação e de preparação logística necessário para este tipo de eventos é tremendo. Em Portugal tem havido algumas recriações de feiras medievais bastante apelativas, como por exemplo a de Óbidos - ainda que aqui se cruzem e se confundam os conceitos de feira e de mercado, que eram diferentes.

Vejamos um mercado. De meados do século XV - por exemplo, da década de 1450. Ainda vivia o Infante D. Henrique, reinava o seu sobrinho D. Afonso V, continuavam os Portugueses a descobrir a costa ocidental africana, o navegador Cadamosto chegava ao arquipélago de Cabo Verde. Em Itália, o movimento cultural que viria a receber o nome de Renascimento estava em franco desenvolvimento... Neste período, o que é que podia ser encontrado e adquirido num mercado? Uma iluminura da época pode dar-nos uma ajuda, se a soubermos interpretar.


Espreitemos esta cena quatrocentista, retirada de uma edição da obra "Livro do Governo dos Príncipes", de Egídio de Roma (c. 1243-1316). À esquerda da imagem encontramos o alfaiate e o seu aprendiz. Há roupas já prontas em exposição, penduradas numa corda. Não se trata de pronto-a-vestir, mas de peças de vestuário já acabadas e à espera de serem levadas por quem encomendou o trabalho. Os clientes levavam ao alfaiate os tecidos (que compravam noutra loja, ao negociante de têxteis), o qual elaborava os trajes pretendidos de acordo com a última moda.

Mais atrás, ao fundo da rua, está a loja dos peleiros. Talvez mais necessários na fria Europa setentrional do que na mais temperada Europa meridional, os peleiros confeccionavam os barretes e os adornos em pele que complementavam os trajes - como pode ser visto num dos homens em primeiro plano, cuja gola e canhões das mangas são em pele. As peles mais comuns eram as de raposa, coelho e gato. A pele de castor também era utilizada para fabricar coberturas para a cabeça. A pele de arminho era muito cara, de modo que só as pessoas mais ricas e importantes a podiam adquirir.

Perto da loja dos peleiros está o barbeiro. Ei-lo a escanhoar um cliente, uma tarefa facilmente reconhecível, pois não mudou muito ao longo dos séculos. Já a moda masculina, no que aos pelos faciais dizia respeito, variou ao longo do século XV. Em meados da centúria era frequente os homens apresentarem-se escanhoados. Esse era trabalho para o barbeiro, que também acumulava outras funções: dentista (ou, mais propriamente, "tiradentes") e sangrador. A sangria era um tratamento recomendado para muitas maleitas, ainda que os resultados fossem duvidosos. As bacias que se vêem na loja do barbeiro destinar-se-iam, provavelmente, a esta última actividade.

Por fim, à direita, vemos um boticário. Apresenta um letreiro que anuncia a venda de "Bom Hipócras", que era um vinho digestivo, preparado com ervas aromáticas e ao qual se adicionava, por vezes, pequenos fragmentos de finíssima folha de ouro (acreditava-se que o ouro ajudava a fazer a digestão). O nome da bebida provém do médico grego Hipócrates, pois utilizava-se uma espécie de filtro de tecido, chamado "manga de Hipócrates", para separar o vinho do sedimento das ervas aromáticas, na fase de preparação da bebida. A sua loja está repleta de recipientes e, sobre o balcão, é possível ver duas bacias. Na verdade, a que está à sua frente servia de cadinho, pois era aí que o boticário, antepassado do actual farmacêutico, preparava a combinação de ervas, especiarias e outros produtos medicinais que o médico receitava ao paciente. A bacia da direita contém pílulas, as quais eram preparadas com uma mistura de várias substâncias reduzidas a pó e amassadas até ficarem com a forma de pequenas bolinhas. À esquerda, em forma de cone, encontra-se o açúcar, produto muito caro nesta época e que entrava na composição de diversos medicamentos.

Como se vê, um pequeno "passeio" por uma iluminura do século XV pode servir de fonte de inspiração para uma recriação histórica.

Bibliografia: MORTIMER, Ian, "Groats in your purse", in BBC History Magazine, vol. 9, nº. 10, October 2008, pgs. 56-59.

domingo, 25 de Outubro de 2009

A artilharia portuguesa de meados do século XV a meados do século XVI

Um interessante documentário sobre a artilharia no período da Expansão Portuguesa, produzido pela Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Histórias de piratas e portugueses em São Tomé e Príncipe



Situado próximo da costa ocidental africana, o arquipélago de São Tomé e Príncipe não escapou à actividade de pirataria e corso empreendida por ingleses, franceses e holandeses no Atlântico a partir do século XVI. Alguns casos são mais ou menos conhecidos, outros nem tanto. Por exemplo, no ano de 1600, um corsário holandês ao serviço da Companhia das Índias Ocidentais do seu país, van der Hagen de seu nome, atacou e saqueou a cidade de São Tomé. Este acontecimento é referido de forma breve no artigo "Pirataria", no Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão (Porto, Livraria Figueirinhas, 1985, vol. V, pgs. 95-99).


Provavelmente menos conhecido entre nós foi o caso do pirata inglês Howel Davis. Em Junho ou Julho de 1719, Davis decidiu pôr em prática um plano para enganar o governador português do arquipélago, António Furtado de Mendonça, então a residir na ilha do Príncipe. O objectivo era insinuar-se junto do governador (na época, piratas e corsários mantinham por vezes relações cordiais, a título pessoal, com governadores das parcelas dos vários impérios europeus, uma vez que as actividades ilegais podiam trazer proveito a ambas as partes), de modo a ganhar a sua confiança e a poder, mais tarde, apropriar-se da fortaleza da ilha sem grande dificuldade. Subsequentemente, pretendia saquear o lugar e apropriar-se das mulheres da ilha, incluindo a esposa do governador, cuja beleza não passava despercebida.



Todavia, António Furtado de Mendonça foi avisado acerca das reais intenções do inglês e resolveu montar-lhe uma armadilha. Convidou Howel Davis para jantar na fortaleza e, quando o inglês, acompanhado por alguns dos seus homens, se dirigiam alegremente para o local, foram atacados de surpresa pela guarnição portuguesa. Um tiro atingiu Davis no estômago. O pirata ainda resistiu, mesmo ferido, e ripostou disparando as duas pistolas que levava, mas acabou por cair morto, tal como a maioria dos seus acompanhantes.



Quando a notícia chegou ao navio do inglês, um outro membro da tripulação, Bartholomew Roberts, que se tornaria ele próprio um pirata famoso, decidiu vingar o seu ex-capitão. Como já tinha estado em São Tomé, conhecia a maneira de bombardear a fortaleza do Príncipe a partir de uma posição desenfiada (ou seja, sem que os canhões da fortaleza pudessem ripostar). Assim fez, aconselhando a tripulação pirata na manobra do navio e na canhonada que se seguiu. A fortaleza e a localidade sofreram bastante com o bombardeamento. Satisfeitos por vingarem o seu capitão, os piratas afastaram-se e, mais tarde, elegeram Bartholomew Roberts para o posto vago pela morte de Davis. Foi o princípio da carreira de Roberts, que se tornou num dos piratas mais famosos da História, embora de curta duração (foi morto em 1722). No entanto, teve tempo para causar mais dissabores aos portugueses - mas isso já escapa ao tema deste pequeno artigo.

Bibliografia: TRAVERS, Tim, Pirates. A History, Stroud, Tempus Publishing, 2007.
Fotos da autoria de J. P. Freitas, excepto a que foi extraída do programa Google Earth e que representa o arquipélago de São Tomé e Príncipe.

sábado, 12 de Setembro de 2009

Monumentos portugueses (6) - A igreja de Santa Engrácia, um dos Panteões Nacionais de Portugal




Principiemos por uma curiosidade: a igreja de Santa Engrácia não se situa na freguesia do mesmo nome, mas na de São Vicente de Fora. Esta mudança ocorreu no século XIX e não implicou qualquer deslocação material do templo - foi o resultado de uma alteração administrativa. Santa Engrácia e São Vicente de Fora - atente-se ao nome - eram paróquias (mais tarde designadas por freguesias) que ficavam fora da cerca fernandina e, portanto, fora da cidade de Lisboa, aquando da sua criação no século XVI. E assim se mantiveram até aos inícios do século XIX, quando o aumento populacional e a expansão da área urbana para oriente fizeram com que a cidade englobasse, por fim, as paróquias.

Para além da peculiaridade referida, Santa Engrácia, a igreja, tem uma história invulgar. O primitivo lugar de culto foi mandado erguer naquele lugar pela infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel I, em 1568. Um temporal em 1681 danificou-a bastante, de tal modo que no ano seguinte foi iniciada a construção de uma nova igreja no mesmo local. Foi o primeiro edifício de traça barroca em Portugal.

O ditado "obras de Santa Engrácia" é aplicado em Portugal a uma obra que se arrasta no tempo, sem conclusão á vista. E, de facto, a construção da nova igreja de Santa Engrácia demoraria 284 anos a terminar: só em 1966 ficou concluída.

Actualmente, a igreja é um dos Panteões Nacionais de Portugal (o outro é o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde estão sepultados os dois primeiros reis de Portugal). Em Santa Engrácia encontram-se os túmulos dos escritores Almeida Garrett (1799-1854), João de Deus (1830-1896), Guerra Junqueiro (1850-1923) e Aquilino Ribeiro (1885-1963), do general Humberto Delgado (1906-1965), opositor ao Estado Novo, assassinado pela polícia política da ditadura, da fadista Amália Rodrigues (1920-1999) e dos presidentes da República Manuel de Arriaga (1840-1917), Teófilo Braga (1843-1924), Óscar Fragoso Carmona (1869-1951) e Sidónio Pais (1872-1918). Santa Engrácia abriga os memoriais fúnebres (cenotáfios) de personagens da História de Portugal entre os séculos XIV e XVI, como Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e Luís Vaz de Camões.

Imagem: Igreja de Santa Engrácia. Foto de J. P. Freitas.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Foi há setenta anos...

1 de Setembro de 1939 - o início da 2ª Guerra Mundial

A Alemanha de Hitler invadiu a Polónia. Foi o climax de anos de expansionismo agressivo por parte do regime Nazi, de conquistas fáceis sem oposição das potências democráticas. De permeio, um surpreendente pacto com a União Soviética de Estaline, em Agosto de 1939, tinha condenado a Polónia à perda da sua independência, um acontecimento recorrente na sua história. Para Hitler, era a primeira conquista pela força, a primeira revanche depois da humilhação sofrida na 1ª Guerra Mundial e das duras condições impostas pelo Tratado de Versalhes. A França e a Grã-Bretanha, aliadas da Polónia, declararam a guerra à Alemanha a 3 de Setembro. Mas deixaram sucumbir a sua aliada. Foi o primeiro acto de uma tragédia que duraria seis anos. Aqui fica o testemunho desse acontecimento, em imagens da época.
















Foto: Águia do III Reich num edifício público em Munique, Agosto de 2009. Um dos raros exemplares que sobreviveram à queda do regime Nazi, no final da Segunda Guerra Mundial. Uma recordação (desprovida da suástica, o símbolo do partido único do regime ditatorial de Hitler) de um tempo em que as trevas se abateram sobre Europa. Fotografia de J. P. Freitas.

sábado, 29 de Agosto de 2009

Monumentos portugueses (5) - Forte de São Julião da Barra



O Forte de São Julião da Barra fica situado na margem direita do rio Tejo. Era antigamente (séculos XVI e XVII) designado por "Forte de São Gião", pois foi erigido no local onde existira uma ermida dedicada àquele santo, na Ponta de São Gião. Foi o rei D. João III que mandou construir a fortificação, a qual passou a fazer parte do sistema defensivo da barra de Lisboa, em conjunto com o Forte de S. Lourenço do Bugio, o Baluarte de S. Vicente (Torre de Belém) e a Torre Velha da Caparica. As obras, iniciadas em 1553, só ficaram concluídas vinte anos mais tarde.

A fortificação conheceu obras de reforço e melhoramento durante a Monarquia Dual (a chamada "Dinastia Filipina"). É um erro frequente designar qualquer praça ou fortaleza que obedeça a uma planta aproximadamente pentagonal como sendo "estilo Vauban", pois este ministro de Luís XIV só nasceu em 1633, e a sua obra começa a notar-se apenas na década de 60 do século XVII. A traça italiana marca, se não a génese, pelo menos os melhoramentos que se efectuaram durante a Monarquia Dual no Forte de S. Julião.

Já no período da Guerra da Restauração (1641-1668), mais precisamente durante a década de 50, foram ampliadas e reforçadas as defesas da fortificação - ao estilo holandês, não ao "Vauban". Um século mais tarde, já no período Pombalino, foram necessárias mais obras de restauro e ampliação, sendo que o Terramoto de 1755 causou alguns estragos no complexo defensivo.

Além de presídio militar (no sentido de local que alberga uma guarnição militar), o Forte de São Julião da Barra serviu como cárcere, praticamente desde a sua origem. Prisioneiros condenados ao degredo por crimes cometidos trabalharam na sua edificação, no século XVI. Em 1640, quando ocorreu a Restauração da Independência, encontrava-se aprisionado nas masmorras do forte D. Fernando de Mascarenhas, 1º Conde da Torre. Foi ele quem conseguiu, através de negociação, a rendição do comandante espanhol e respectiva guarnição, onze dias depois da Revolução do 1º de Dezembro. Durante a Guerra da Restauração vários prisioneiros passaram pelas masmorras da fortaleza, entre os quais o oficial luso-catalão Pedro Bonete, que em 1643 foi ali executado, acusado de alta traição.



O prisioneiro mais célebre que por ali passou terá sido o general Gomes Freire de Andrade, acusado de ser um dos líderes da intentona contra a Junta de Governo em 1817 (a primeira - e frustrada - tentativa de levar a cabo a Revolução Liberal em Portugal). Gomes Freire foi executado nas proximidades do forte, junto à Estrada da Medrosa, em local hoje assinalado por um cruzeiro, bem perto das instalações actuais do Comando Ibérico da OTAN. Vale bem a pena ler a obra "Felizmente há Luar!", de Luís de Sttau Monteiro, inspirada neste episódio da História de Portugal - ou ver a peça representada!

Entre 1828 e 1834, período em que D. Miguel restabeleceu o Absolutismo e o país conheceu a Guerra Civil (1832-1834) entre Liberais e Absolutistas, o Forte de São Julião da Barra serviu como prisão para os defensores do Liberalismo. Ficaram tristemente célebres, devido à brutalidade exercida sobre os prisioneiros, o brigadeiro Teles Jordão e o seu filho, um garoto de treze anos (na época em que o seu pai era governador do forte) que se entretinha a maltratar os infelizes "malhados" (alcunha depreciativa dada aos defensores da causa Liberal).

Actualmente, o forte é a residência oficial do Ministro da Defesa.

Imagens: em cima, planta do forte de S. Julião da Barra, de 1700 (Biblioteca Nacional de Lisboa); em baixo, fotografia da autoria de J. P. Freitas.

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

20 de Julho de 1969 - O Homem na Lua!


Foi há quarenta anos (quase ontem, em tempo histórico) que um ser humano pisou pela primeira vez o solo do nosso satélite. Coube a Neill Armstrong esse feito. "É um pequeno passo para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade" - foram estas as palavras do astronauta dos EUA.

Mas existe uma curiosidade acerca desta célebre frase. Traduzida para português, não deixa transparecer uma curiosa gaffe, que só no original se torna perceptível. Armstrong deveria ter dito (era essa a frase escrita e ensaiada, para ser proferida quando tocasse a superfície da Lua): "That's one small step for a man; one giant leap for mankind". A tradução seria assim: "É um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade". Ou seja, referia-se à simplicidade de um pequeno passo de um homem - do próprio Armstrong - se revelar tão importante para o futuro da espécie humana. Mas o nervosismo (ou a electricidade estática que atrapalhou a comunicação, segundo a versão da NASA) fê-lo omitir o artigo indefinido, e assim o que se ouviu foi: "That's one small step for man; one giant leap for mankind". Como man (sem ser precedido de artigo) e mankind têm o mesmo valor em inglês, a frase soou algo contraditória, o que terá divertido alguns puristas da língua. De regresso à Terra, o próprio Neill Armstrong se apressou a corrigir a sua declaração, dizendo que tinha sido mal reproduzida pela imprensa.

Mais frase, menos frase, foi um grande passo. Mas a Humanidade ainda está a aprender a andar no espaço. Cabe às novas gerações dar o impulso definitivo para a passada firme.



Imagens: em cima, o módulo lunar da missão Apolo 11; em baixo, o astronauta Neill Armstrong.

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Futebol com História (III) - Club Internacional de Foot-Ball




O Club Internacional de Foot-Ball (popularmente conhecido pela sigla CIF, mas que ainda mantém oficialmente no nome a grafia do início do século XX) foi fundado em 1902 por dois membros da família Pinto Basto, introdutora do futebol em Portugal: Fernando e Eduardo Luís. É, pois, um dos mais antigos clubes do país. Originalmente designava-se por Foot-Ball Club Swifts, nome que revela a influência inglesa desses primeiros tempos do desporto do pontapé na bola. Só em Dezembro de 1904 passaria ao novo e definitivo nome, também ele espelho da mescla de nacionalidades que compunham o núcleo de praticantes do CIF.

O CIF possuía então o melhor campo de futebol de Lisboa, mas não se pense que era um estádio com bancadas e relvado imaculado: tratava-se muito simplesmente do terreno da Feira de Alcântara, cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, sito entre a Avenida 24 de Julho e a linha férrea. Em cada Verão, o terreno voltava à sua função primitiva de campo de feira, de modo que os futebolistas (que eram também os dirigentes e dinamizadores/organizadores dos desafios) tinham de reconstruir o espaço destinado ao jogo quando a época estival se escoava e o período das grandes jogatanas era retomado. Balizas de madeira, de construção algo tosca, e uma sumária vedação completavam o espaço de terra batida e "ervado" destinado ao jogo.

O primeiro desafio oficial do CIF não foi muito auspicioso: derrota por 0-4 com o então poderoso Carcavellos, em 7 de Dezembro de 1905. Mas a equipa foi melhorando com o tempo e entre 1908 e 1912 dominou o futebol na capital. Criou uma forte rivalidade com o Sport Lisboa e Benfica, antecedendo a que o clube da águia viria a encetar com o arqui-rival Sporting Clube de Portugal. O CIF foi a primeira equipa portuguesa a deslocar-se ao estrangeiro (e a primeira a triunfar fora de portas): em Janeiro de 1907 bateu o Madrid Football Club - que em 1920 mudaria o nome para Real Madrid C. F. - na capital espanhola por 2-0. Foi também o primeiro clube português a ganhar uma taça no estrangeiro ao vencer, em Maio de 1909, em Badajoz, um clube local - o Sport Club Bacence - por 3-0.

Após a Primeira Guerra Mundial, o desporto amador entrou em declínio, cedendo muitas modalidades à crescente febre do profissionalismo. O futebol não foi excepção, mas os dirigentes do CIF não embarcaram na onda da moda dos anos 20 do século XX. O clube retirou-se das competições oficiais, invadidas pelo profissionalismo, continuando, porém, a dedicar-se à prática exclusiva do desporto amador nas modalidades de futebol, ténis, atletismo e basquetebol (modalidade em que, na categoria de femininos, alcançou muitos títulos nacionais). Como ainda hoje acontece, naquele que é um dos mais antigos e prestigiados clubes portugueses.

Bibliografia: DIAS, Marina Tavares, História do Futebol em Lisboa, Lisboa, Quimera, 2000.

Imagem: Cromo da década de 1940 representando o equipamento do Club Internacional de Foot-Ball. Contudo, as fotos das duas primeiras décadas do século XX mostram invariavelmente a equipa do CIF com camisola às riscas verticais pretas e brancas e calção branco.

domingo, 31 de Maio de 2009

As primeiras notas de banco




As notas de papel representando a moeda de metal são muito antigas. No Oriente, já no século VII circulavam em algumas partes da China. Na Europa, só no século XVII foram emitidas as primeiras notas, na Suécia. A ideia partiu de um mercador holandês, de seu nome Johan Palmstruch, o qual convenceu o soberano sueco Carlos X a fundar o Banco de Estocolmo em 1657. A promessa de que metade dos lucros do banco reverteriam para a Coroa foi o argumento decisivo para a real permissão. As notas em papel substituíriam as moedas depositadas no banco, podendo a qualquer altura ser trocadas pelo metal sonante. Eram, em boa verdade, "papéis de crédito".

De início, a ideia foi um sucesso e os lucros do banco foram muito satisfatórios. Palmstruch foi até recompensado com um título de nobreza pelo rei da Suécia. Mas em breve o Banco de Estocolmo estava a conceder mais crédito e a emitir mais notas do que o correspondente valor em moedas nele depositado. E deste modo, em 1668 o banco foi à falência.

E o que sucedeu a Palmstruch? O Rei Carlos X ficou profundamente desagradado. Retirou o título de nobreza e os privilégios ao holandês, culpabilizando-o pela desastrosa gestão do banco. Johan Palmstruch não se livrou da prisão (de qualquer modo, a alternativa seria a pena de morte). Libertado em 1670, morreu no ano seguinte, com 60 anos.

Imagem: Notas portuguesas anteriores à adesão do nosso país ao Euro: de 20 escudos, à esquerda, com a representação de Santo António de Lisboa, e 500 escudos, à direita, com a de João de Barros. Foto de J. P. Freitas.

segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Monumentos portugueses (4) - Fortaleza de Peniche

Partiu de D. Manuel I (cujo reinado decorreu entre 1495 e 1521) a ideia de edificar uma fortificação na povoação de Peniche, que ajudasse a proteger o litoral dos ataques de piratas ingleses, franceses e berberes. No entanto, foi só no tempo do seu sucessor, D. João III, que os trabalhos tiveram início, e mesmo assim somente no último ano do reinado: 1557. A conclusão da obra ocorreu já no reinado de D. Sebastião, em 1570. É deste período a fortaleza primitiva, de traça circular, que se vê na imagem abaixo.




No século XVII, no decurso da Guerra da Restauração (1641-1668), a fortificação foi ampliada, desta feita já com a traça poligonal estrelada, característica da época, mais adequada às exigências da evolução da artilharia. O projecto do engenheiro militar francês Nicolau de Langres foi completado posteriormente pelo engenheiro português João Tomaz Correia.




No decurso da 1ª Invasão Francesa, a fortaleza esteve ocupada pelas forças comandadas por Jean-Andoche Junot. Os soldados franceses picaram o escudo com as armas reais portuguesas sobre o portão principal.




Já no início do século XX, perdida a sua função defensiva, a fortaleza serviu de abrigo a Boers (sul-africanos de origem holandesa) que pediram asilo a Portugal, depois da sua derrota na guerra com os ingleses na África do Sul (1900-1902). Durante a Primeira Guerra Mundial serviu de prisão para soldados e marinheiros alemães capturados pelas forças portuguesas. Convertida em prisão de alta segurança para prisioneiros políticos durante o Estado Novo (1933-1974), ficou célebre a fuga encetada por Álvaro Cunhal e outros militantes do PCP (então na clandestinidade) em Janeiro de 1960.




Desde 1984, a fortaleza abriga num dos seus pavilhões o Museu Municipal, incluindo o Núcleo da Resistência - uma reconstituição do ambiente de uma prisão política durante a ditadura do Estado Novo.

Todas as fotos deste artigo são da autoria de Jorge P. Freitas.

sábado, 25 de Abril de 2009

25 de Abril de 1974 - 35 anos depois

Em 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas derrubava o regime ditatorial que António de Oliveira Salazar fundara em 1933 - o Estado Novo. Na verdade, Portugal era governado em ditadura desde um outro golpe militar, o de 28 de Maio de 1926, o qual pusera fim à I República e abrira caminho à ascensão politica de Salazar.

Quase meio século de privação das liberdades políticas e de expressão, de condicionamentos económicos, sociais e culturais, de perseguições políticas, de medo, de tortura ou exílio das vozes discordantes. E da guerra, a guerra a que uns chamam "colonial", outros "do ultramar", outros ainda "de libertação", a qual marcou a geração que entre 1961 e 1974 a conheceu e a protagonizou em Angola, na Guiné e em Moçambique. Foi, em última instância, a guerra que apressou o fim do regime ditatorial em Portugal.

Afastado do poder devido a um acidente, Oliveira Salazar foi substituído por Marcelo Caetano no cargo de Presidente do Conselho de Ministros em 1968. Das esperanças de transformação do regime a partir de dentro à constatação, pela oposição manietada, de que as hesitantes promessas de Caetano quanto a uma liberalização não se concretizariam, foi um passo. Manteve-se a intransigência na defesa, a todo o custo, do Império ultramarino, contra os movimentos independentistas e a pressão internacional. O regime caiu nessa madrugada de 25 de Abril de 1974 pela determinação operacional de oficiais cansados de uma guerra de 13 anos, sem solução militar à vista e cuja saída política fora, logo à partida, posta de parte.

Recorda-se aqui, em documentário histórico da RTP, o momento do cerco do Quartel do Carmo pelas forças do MFA, comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, e a rendição do Presidente do Conselho Marcelo Caetano, que se encontrava refugiado naquele quartel com os ministros Rui Patrício e Moreira Baptista, ao general António de Spínola. Acabava o Estado Novo e a polícia política, a censura, a Mocidade Portuguesa, a Legião Portuguesa. Abriram-se as portas à democracia - o caminho não iria ser fácil, mas ainda hoje o trilhamos. Em Liberdade.

sábado, 18 de Abril de 2009

18 de Abril, Dia Mundial dos Monumentos e Sítios

Baluarte de São Vicente a par de Belém

Assim se designava, no século XVI, a fortificação que hoje é conhecida simplesmente por Torre de Belém. Construída durante o reinado de D. Manuel I, foi iniciada em 1514 pelo arquitecto Francisco de Arruda, tendo sido concluída em 1520. Integrava o plano defensivo da barra do Tejo, em conjunto com o baluarte de Cascais, na margem direita do rio, e o baluarte de Caparica, na margem esquerda. O baluarte de São Vicente ficava então completamente cercado pela água, pois erguia-se sobre um afloramento rochoso que se encontrava defronte da praia de Belém, de onde partiam as naus para a Índia.



Para uma visita virtual à Torre de Belém, consulte-se esta página. Mas nada substitui a visita ao monumento, que se aconselha!

Fotografia de Jorge P. Freitas.

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Monumentos portugueses (2) - Muralhas e castelo de Trancoso

O castelo de Trancoso fica situado na Beira Alta, não longe da nascente do rio Távora. As suas origens remontam ao período da Reconquista Cristã, havendo já no início do século X referência a um castelo em Trancoso.
Por ocasião da formação do Condado Portucalense, a povoação de Trancoso e o seu castelo fizeram parte do dote de D. Teresa, filha de Afonso VI de Leão e Castela e esposa do Conde D. Henrique. O filho de ambos, D. Afonso Henriques, por aquelas paragens batalhou contra os muçulmanos entre 1140 e 1155. Nesta data, o primeiro rei de Portugal atribuiu foral à povoação. Em 1173, o castelo e todos os domínios de Trancoso foram doados aos Templários.
O castelo tem traços do estilo românico e gótico. Compreende cinco torres quadrangulares. A torre de menagem, de planta quadrada, tem uma curiosa configuração piramidal. A cintura muralhada que abraça a povoação é rasgada por cinco portas e dois postigos. Para uma descrição mais pormenorizada sobre o castelo e muralhas de Trancoso, veja-se esta página.

Torre e panos de muralha do castelo


Portas d'El-Rei


Portas do Carvalho


Às Portas do Carvalho, também conhecidas por Portas do Cavalo, encontra-se ligada a lenda de João Tição da Fonseca.

O INTRÉPIDO JOÃO TIÇÃO DA FONSECA
«Sem conhecermos mais gordo João Tição da Fonseca, tão só pelo retrato sumamente adulterado da lenda, não nos parece curial deixar passar em falso o seu presumível feito, nem tampouco, a sua descrição física que, quiçá fantasiosa, pecará por defeito, que não por excesso.
0 Tição devia ser um jovem e valente guerreiro, hercúleo, de ombros largos e peito em arco, daqueles homens talhados em granito que dariam dois se fossem partidos ao meio.
Em dia melancólico, olhando os longos desertos e a presença incomodativa dos mouros que faziam demorado cerco à praça de Trancoso, o guerreiro magicou sobre o meio de sair montado no corcel e correr de jau para jales em desafio à moirama excomungada.
Enquanto a maioria dos do castelo se baldeava no sono, numa sinfonia de roncos, assobios e arfares de duvidosa partitura, João Tição resolvera matar o tédio dos dias de clausura forçada. Causava-lhe certo engulho ver enferrujar na bainha os gumes da sua espada.
Saiu do castelo pela calada da noite, apenas pressentido por lobos e avejões, catrapus catrapós sobre o cavalo, direitinho ao arraial dos agarenos que, a uma légua do castelo, ferravam o galho em sonhos de princesas em trajes sumários e haréns recheados.
Com uma certa temeridade e outra tanta dose de loucura, conseguiu ludibriar as sentinelas e, penetrando no acampamento, apoderou-se da bandeira do crescente que espanejava sobre uma tenda. Refreando os ímpetos de espezinhar ali mesmo o guião, montou no cavalo e partiu em desfilada de regresso ao castelo, levando desfraldada ao vento a sua vitória.
Porém, um homem excluído da beatitude de sonho embalador, deu conta da marosca e alertou os dorminhocos, mau grado ter preparado os ouvidos para ouvir impropérios onde não era mencionado o nome de Alá. Feridos na soberbia, os mouros zarparam em perseguição do atrevido. Montados em fogosos e descansados puros-sangue de raça árabe, depressa diminuíram a distância que os separava do fugitivo. Este, presumindo as portas a Nascente abertas, para aí fez colear o cavalo. Porém, as sentinelas, vendo aquele vulto com bandeira moura estadeada, não abriram uma nesga.
Logo que ciente da situação, o cavaleiro deu uma palmada na garupa do cavalo e gritou:
- Salta, cavalo! Morra homem, fique a fama!
Morreu o homem e ficou a fama. Rebentou o cavalo e, ali mesmo, foi trucidado pelos inimigos. A bandeira fora arremessada pelo herói para dentro das muralhas. Com grande espalhafato de armas e celeuma de vozes, os mouros foram impotentes para recuperarem o galardão. Apenas levaram para a sua terra a lição de coragem que lhes servira o João Tição da Fonseca.»
(in Santos Costa, Almanaque Anuário de Trancoso)

Todas as fotos incluídas neste artigo são da autoria de Jorge P. Freitas.

quinta-feira, 16 de Abril de 2009

"Vive Henri IV" (hino da monarquia francesa)

História e música. Voltamos aos hinos, desta vez visitando o pouco conhecido (para nós, portugueses) hino da monarquia francesa. "Vive Henri IV" foi composto por volta de 1590, em homenagem a Henrique de Bourbon, ou Henrique IV de França (1553-1610), igualmente conhecido por Henrique III de Navarra, pois foi também soberano daquele reino do nordeste da Península Ibérica antes de ascender ao trono da França em 1589, fundando a dinastia de Bourbon. Outros cognomes de Henrique IV: Henrique, O Grande; O Bom Rei Henrique; Henrique, o Verde Galante (uma alusão ao seu constante galanteio do sexo feminino - desde a Idade Média que o verde significava o amor ou a paixão).



O vídeo que aqui deixo foi respigado de uma apresentação inserida na página You Tube. A letra que acompanha as imagens corresponde à versão original, dos finais do século XVI. Uma letra diferente foi composta para o hino monárquico do período da Restauração, após o fim do I Império de Napoleão (1814). Nota: a primeira parte do vídeo compreende a versão instrumental; na segunda parte surge o hino cantado.

domingo, 12 de Abril de 2009

Monumentos portugueses (1) - A torre-atalaia de Ródão e a capela de Nossa Senhora do Castelo



Inicio esta série com a apresentação de uma edificação militar de Vila Velha de Ródão, mais conhecida por "Castelo de Ródão". O "castelo" não é mais do que uma torre-atalaia, construída pelos cavaleiros Templários no período da Reconquista Cristã (século XII), no local onde existiu originalmente uma atalaia muçulmana datada do séc. VIII. Diz a tradição que ali existiu, ainda antes dos mouros terem erguido a primitiva atalaia, uma fortificação do período do rei visigodo Wamba (672-680). Atendendo ao local estratégico, deverá haver aí um fundo de verdade, ainda que a atribuição precisa a Wamba careça de fundamento sólido.




Perto da torre-atalaia fica a capela de Nossa Senhora do Castelo, construída pelos Templários ao mesmo tempo que a torre.

Fotos de Jorge P. Freitas.

segunda-feira, 23 de Março de 2009

Document(ári)o Histórico - A inauguração do Estádio Nacional, 10 de Junho de 1944

Enquanto não me sobra tempo para escrever mais um artigo, aqui fica, em duas partes, o documentário realizado por António Lopes Ribeiro sobre a inauguração do Estádio Nacional em 10 de Junho de 1944. Trata-se de um registo de actualidades destinado a ser projectado nos cinemas, em complemento do filme A Menina da Rádio. O documentário cumpria também uma função de propaganda do regime. Note-se o marcado culto do chefe, de que é exemplo o discurso de agradecimento a Salazar proferido diante da tribuna de honra, e a exaltação nacionalista característica deste período do Estado Novo. Acima de tudo, a obra de António Lopes Ribeiro é um excelente documento histórico - e como tal deve ser entendida a esta distância no tempo.



terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Charlie Chaplin - Tempos Modernos


Charlie Chaplin em Tempos Modernos (1936). Uma crítica bem humorada ao "modelo americano" de produção nos anos 20 (taylorismo, trabalho em cadeia e estandardização), fonte de prosperidade económica, mas também de desumanização nas relações de trabalho. Filme realizado e interpretado por Charlie Chaplin, o popular "Charlot".

O filme, na íntegra (mas sem legendas), em 9 partes:

http://www.youtube.com/watch?v=a0XjRivGfiw

http://www.youtube.com/watch?v=AvNQiF89Pek&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=L1kUKvjMiSg&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=FutUm-9Bfc0&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=KjGfjL_fy4U&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=iMLFxRRwmkE&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=Y6z73Ibkt-w&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=31ibro0O18M&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=SEZON7T9WMU&feature=related

segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Hino da Independência do Brasil













Este artigo está relacionado com outro aqui publicado, sobre o Hino da Carta (hino nacional
português durante a Monarquia Constitucional). O autor da música de ambos foi D. Pedro, primeiro Imperador do Brasil e quarto Rei do mesmo nome em Portugal. A letra do Hino da Independência do Brasil (hino nacional brasileiro entre 1822 e 1889) é da autoria de Evaristo da Veiga:


Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.


Imagens: As primeiras bandeiras do Brasil independente; a da esquerda vigorou por pouco tempo, entre 18 de Setembro e 1 de Dezembro de 1822 (data da coroação de D. Pedro I como imperador); a da direita vigorou desde 1 de Dezembro de 1822 até 15 de Novembro de 1889, quando um golpe militar instaurou a República. A principal diferença entre as duas reside no escudo, tendo a coroa original sido substituída por uma coroa imperial.

Vídeo: de minha autoria.

Consulte-se também: http://www.brasilimperial.org.br/bandsbr.htm



video

domingo, 11 de Janeiro de 2009

Bonaparte e o FBI





"(...) existe um grau de parentesco entre o fundador do FBI, Charles Joseph Bonaparte, que foi ministro norte-americano da Justiça, e o Imperador francês, Napoleão Bonaparte, sendo Charles neto de Jérôme Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão."

Esta foi a resposta correcta, dada por Carlos Ramalhinho (a quem endereço os parabéns), ao pequeno enigma do post anterior.


Charles Joseph Bonaparte e o FBI

O Federal Bureau of Investigation foi fundado em 1908, embora o nome pelo qual é conhecido actualmente só lhe tenha sido atribuído três anos mais tarde. O seu criador foi Charles Joseph Bonaparte (9 de Junho de 1851-28 de Junho de 1921), sobrinho-neto de Napoleão Bonaparte. Um brilhante aluno de Harvard, católico, conservador e polémico, Charles Bonaparte começou a sua carreira como advogado, mas desde cedo se envolveu na política. Foi um forte crítico da criação do sistema de escolas públicas (que então ensaiava os primeiros passos nos EUA), pois era contra a ideia do Estado proporcionar ensino gratuito para todos. Em 1902, o presidente Theodore Roosevelt (um amigo de longa data de Charles Joseph) convidou-o para o Board of Indian Commissioners, um organismo destinado a investigar fraudes no sistema postal. Três anos mais tarde foi empossado como U.S. Secretary of the Navy (Secretário de Estado - equivalente, nos EUA, a ministro - da Marinha). Terá sido o mais indolente Secretário de Estado da Marinha que os EUA tiveram, pois limitava-se a trabalhar uma hora por dia no seu gabinete, entre o meio-dia e as treze. Tinha residência em Baltimore e deslocava-se de comboio para a capital, regressando de imediato a casa após a hora de trabalho. Só se demorava mais quando havia reunião do Gabinete Presidencial. Não obstante, foi nomeado U.S. Attorney General (equivalente a Ministro da Justiça) em 1906, cargo para o qual estava muito melhor talhado e que ocupou até ao fim do mandato presidencial do seu amigo Theodore Roosevelt, em 1909. Foi como Attorney General que criou o FBI, uma força de agentes secretos destinada a investigar fraudes. A sua acção inseria-se nos propósitos políticos do Presidente Theodore Roosevelt, de combate à corrupção e às práticas ilegais de algumas grandes corporações económico-financeiras.

Breve história familiar de Charles Joseph Bonaparte
O avô de Charles Bonaparte, Jérôme Napoleon, era o irmão mais novo do Imperador dos Franceses. Em 1803, Jérôme conheceu uma bela e rica jovem americana de Baltimore, Elizabeth - ele tinha 19 anos, ela 18. Casaram em segredo nesse mesmo ano, o que enfureceu Napoleão Bonaparte, que não reconheceu a legalidade do matrimónio.
O casal mudou-se para Lisboa em 1805, mas logo se separou. A jovem Elizabeth (Betsy, como era mais conhecida) estava então grávida. Jérôme não resistiu aos argumentos do seu poderoso irmão mais velho e tornou-se mais um peão no tabuleiro da política diplomática e de guerra que o mano Napoleão jogava na Europa: aceitou ser Rei da Vestfália e voltou a casar. Betsy recebeu uma pensão anual de 60.000 francos por ano de Napoleão, em compensação. No entanto, o reconhecimento do divórcio com Jérôme só chegaria em 1815.
A pensão anual, uma pequena fortuna para a época, permitiu a Betsy viajar pela Europa, o que fez até 1840, ganhando fama pela sua beleza e espírito mordaz. O seu filho, Jérôme-Bonaparte Patterson, foi com ela viver para Baltimore. Aí cresceu e estudou, tendo-se casado com uma senhora da alta sociedade local. Teve dois filhos: Charles Joseph, o criador do FBI e tema deste artigo, e Jerome Napoleon, oficial do exército, que serviu nos EUA e no exército francês do seu primo, o Imperador Napoleão III.

Para saber mais: http://www.fbi.gov/libref/historic/history/historic_doc/docstar.htm

Nas imagens: Jérôme Bonaparte, o avô, e Charles Joseph Bonaparte, o fundador do FBI.

sábado, 20 de Dezembro de 2008

Curiosidades da História (responda o leitor) - 1



Com este post, dá-se início a uma rubrica que visa convidar o leitor a responder a uma questão relacionada com as imagens publicadas. E a questão que aqui fica (para ser respondida nos comentários) é a seguinte:

Que relação existe entre a personagem retratada e a bem conhecida instituição dos EUA, cujo emblema aparece logo abaixo?

A resposta certa será incluída num novo post, que esclarecerá este pequeno "enigma".

Actualização: Carlos Ramalhinho já respondeu correctamente (comentário 1).

domingo, 14 de Dezembro de 2008

Hino da Carta (1834-1910)


O hino português é um dos símbolos nacionais. O hino actual, A Portuguesa, foi composto em 1890 como canção patriótica, na sequência do Ultimato britânico (por causa da questão do "Mapa Cor de Rosa"). A início cantado por todos, depressa foi adoptado pelos republicanos, que fariam da composição de Alfredo Keil, com letra de Henrique Lopes de Mendonça, hino nacional após a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910.

O que poucos portugueses conhecerão é o hino do período da Monarquia Constitucional. Composto por D. Pedro IV, que o designou "Hymno da Carta", em alusão à Carta Constitucional por ele outorgada em 1826, foi o Hino Português entre Março de 1834 e Outubro de 1910.

A letra era a seguinte:

Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição


(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição


Ó com quanto desafogo
Na comum agitação
Dá vigor às almas todas
Divinal Constituição


(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição


Venturosos nós seremos
Em perfeita união
Tendo sempre em vista todos
Divinal Constituição


(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição


A verdade não se ofusca
O Rei não se engana, não,
Proclamemos Portugueses
Divinal Constituição


(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

A música do Hino da Carta é reproduzida neste pequeno vídeo de minha autoria.

video

domingo, 23 de Novembro de 2008

Reconstituição histórica: Saxões e Normandos

Um pequeno filme (na verdade, um slide show com banda sonora) de uma reconstituição histórica levada a cabo em Inglaterra, em Agosto de 2007: Festival of History, em Kelmarsh Hall. O "filme" foi "realizado" por mim.

Apresentado como sugestão para os leitores, em especial os mais jovens, que queiram produzir algo no género (e de preferência, melhor) para os seus trabalhos escolares.

video

quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

O senhor português das Baleares





D. Pedro Sanches foi o quinto filho legítimo do rei D. Sancho I (Sanches significava "filho de Sancho"). Já não conheceu o seu avô, D. Afonso Henriques, pois nasceu dois anos depois do falecimento daquele. Para ser mais preciso: em 23 de Fevereiro de 1187. Morreria em 2 de Junho de 1258, com a provecta idade de 71 anos.

Como todos os filhos segundos, fossem da realeza ou da nobreza, dificilmente D. Pedro podia aspirar à herança dos domínios do seu pai. Ou neste caso, do Reino. O seu irmão mais velho, D. Afonso, era o príncipe herdeiro (três irmãs haviam nascido antes de D. Afonso: D. Teresa, D. Sancha e D. Constança; na condição de mulheres, perderam o direito de sucessão em favor do irmão, mesmo mais novo). Diga-se que D. Pedro Sanches teve muitos irmãos e irmãs, e meios-irmãos e meias-irmãs. O seu pai teve 11 filhos legítimos e 8 bastardos.

Foi precisamente uma zanga entre irmãos que levou D. Pedro a envolver-se numa guerra com D. Afonso, quando este era já rei, o segundo de seu nome. Tomou partido pelas suas irmãs, que se opunham ao mano soberano. E foi junto de uma delas, D. Teresa, casada com o rei de Leão, que se refugiou. Partiu depois para Marrocos, pondo-se ao serviço do rei Almóada. A vida de aventureiro errante, ainda que girando quase sempre nas altas esferas na nobreza (mesmo de uma fé diferente da sua), era comum entre os filhos segundos de sangue real, na época.

Em 1229, D. Pedro foi para o reino de Aragão. Casou com a Condessa de Urgel ainda nesse ano, e no seguinte estava em Ibiza como conquistador, arrebatando, com o Bispo de Tarragona, a ilha aos mouros. Em 1231, por morte da mulher, torna-se Conde de Urgel. Como D. Pedro era natural de um reino estrangeiro (razão pela qual a sua mulher tinha mantido a titularidade do Condado de Urgel quando casaram), o rei Jaime I de Aragão decidiu contestar o direito de sucessão do infante português. Após algumas disputas, chegaram a acordo. D. Pedro cedeu o Condado de Urgel, e em troca recebeu, como feudo do rei de Aragão, o domínio de Maiorca, as ilhas de Ibiza e Formentera, e ainda de três castelos, dois nas ilhas Baleares e outro no continente, em Alicante. Após a sua morte, todos estes territórios voltaram à posse do rei de Aragão, pois D. Pedro Sanches teve somente dois filhos ilegítimos, os quais não podiam herdar os domínios do seu pai natural.

Imagens: Em baixo, as ilhas Baleares (foto obtida a partir do programa Google Earth). Em cima, miniatura "representando" D. Sancho I, pai de D. Pedro Sanches, e a bandeira do Reino de Portugal. Pintura e foto de Jorge P. Freitas.

domingo, 16 de Novembro de 2008

A barca e o barinel, esses esquecidos dos Descobrimentos




"Que navio associa à época dos Descobrimentos Portugueses?" - a esta pergunta, muitas pessoas responderiam de imediato "a caravela". E a verdade é que este tipo de embarcação, surgido durante a década de 40 do século XV, foi muito importante para as viagens que se realizaram por iniciativa do Infante D. Henrique ou, após a sua morte, por Fernão Gomes, rico mercador de Lisboa, e mais tarde por iniciativa do Príncipe Perfeito, o futuro Rei D. João II. Navio muito rápido para a época, fácil de manobrar, com um calado que permitia navegar em águas pouco profundas, a caravela estava equipada com velas triangulares - também conhecidas por velas latinas - que permitiam bolinar, ou seja, navegar com ventos contrários à rota desejada.

Mas quando a caravela surgiu, já os portugueses haviam dobrado o cabo Bojador, essa "barreira" do fim do mundo das lendas medievais. Gil Eanes derrubou esses mitos em 1434, contrariando ventos, correntes fortíssimas e os perigos de uma navegação costeira ainda sem mapas para orientação (era nessas viagens que se tiravam notas e faziam esboços para, no futuro, outros irem mais precavidos de tabelas e mapas, ainda que não menos receosos)... e fê-lo sem caravela!

Os feitos notáveis dos primeiros navegadores que ousaram enfrentar os perigos do Oceano Atlântico tiveram como veículo embarcações ainda mais frágeis e tecnicamente menos desenvolvidas que a caravela. Foi em barcas que se redescobriu o arquipélago da Madeira e se atingiram as ilhas dos Açores. Foi em barcas e barinéis que os primeiros colonos se deslocaram para os seus definitivos lares insulares. Foi a barca que permitiu a Gil Eanes, após doze anos de tentativas frustradas, ultrapassar o Bojador.

Como eram esses navios?

A barca comportava uma tripulação de 20 homens e podia ter velas quadrangulares ou latinas. Estava já equipada com leme central à ré (ou seja, na traseira do navio).

O barinel era um pouco maior que a barca e podia ter uma tripulação de 30 homens. Havia barinéis com um, dois e até três mastros. Tal como a barca, estava equipado com cesto de gávea, onde um marinheiro de visão aguda procurava, do alto, vestígios de terra firme no horizonte. A parte dianteira do navio era mais elevada - o castelo de proa. Estas características foram desenvolvidas e incorporadas na caravela, que substituiu a barca e o barinel nas viagens de exploração da costa africana a partir da década de 40 do século XV.

Não há imagens conhecidas de barinéis. As que aqui se reproduzem são reconstituições de barcas. Para saber um pouco mais sobre barcas e barinéis, sugiro a visita a este endereço (Instituto Camões):
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/navegaport/c04.html

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

90º Aniversário do Armistício - 11 de Novembro de 1918




Passam hoje 90 anos sobre o fim dos combates naquela que foi, durante algum tempo, conhecida como A Grande Guerra. Houve quem lhe chamasse "a guerra para acabar com todas as guerras". Uma geração depois, um cataclismo bélico ainda maior obrigaria a uma reclassificação: a que terminara às 11 horas de 11 de Novembro de 1918 passaria a ser conhecida por Primeira Guerra Mundial.

O mundo mudou bastante após o suicídio colectivo da Europa, ocorrido entre 1914 e 1918. Nacionalismo extremo, militarismo, convicções e preconceitos civilizacionais destruíram impérios caducos e redistribuíram os povos, por conveniência ou acaso, num novo mapa político. Nas escolas dos anos 20, enquanto eram preparados para a carnificina seguinte, os alunos passaram a aprender nomes estranhos de países como Jugoslávia ou Checoslováquia. Souberam que a Polónia já existira e fora apagada do mapa várias vezes e agora emergia de novo. E que a Rússia era vermelha (e até já não se chamava Rússia, embora em alguns quadrantes houvesse receio de entrar em pormenores quando um estudante mais afoito perguntava o que queria dizer URSS). Observando de fora do velho continente dilacerado, a jovem nação dos Estados Unidos da América emergia como a grande vencedora, assumindo até hoje a hegemonia económica mundial que a Europa deixara cair.

A consciência dos europeus tardaria a compreender este facto. Nos anos imediatos ao conflito, a dor e a estupefacção pelas tremendas perdas humanas tomou conta dos que ficaram para recordar. Foi uma geração perdida, metralhada, bombardeada, gaseada, permanentemente jovem nos esqueletos e pedaços que se espalharam pelos campos de batalha. Sucediam-se as homenagens, o culto do Soldado Desconhecido, esse mártir anónimo que podia ser um qualquer filho, pai ou irmão. E os desfiles entre lágrimas a cada 11 de Novembro, juntando familiares dos mortos e os sobreviventes da mortandade, muitos com marcas demasiado visíveis do engenho assassino do Homem nas faces ou membros, ou na falta destes.

Portugal participou na Grande Guerra entre Março de 1916 e Novembro de 1918, nas frentes de guerra do noroeste europeu (Flandres) e de África (sul de Angola e norte de Moçambique). Declarou guerra à Alemanha e alinhou com a Tríplice Entente (Grã-Bretanha, França e Rússia) e seus aliados. Não vem agora ao caso descrever os motivos dessa participação. Hoje passam 90 anos sobre o fim de uma loucura colectiva. É tempo de recordar todos os que perderam a vida ou que sofreram atrozmente entre Agosto de 1914 e Novembro de 1918. Entre eles, muitos militares portugueses. Como todos os que participaram na Grande Guerra, merecem de nós a memória de um respeito sentido e o empenho presente na preservação da paz.

Para quem quer saber mais sobre o conflito (site em inglês):
http://www.firstworldwar.com/

Leituras escolhidas, em português:

FRAGA, Luís Manuel Alves de, O Fim da Ambiguidade. A Estratégia Nacional Portuguesa de 1914-1916, Lisboa, Universitária Editora, 2001. Sobre a situação internacional e a entrada de Portugal na guerra.

HENRIQUES, Mendo Castro; LEITÃO, António Rosas, La Lys, 1918. Os Soldados Desconhecidos, Lisboa, Prefácio, 2001. A derrocada do Corpo Expedicionário Português na Flandres, face à ofensiva alemã de 9 de Abril de 1918.

MARQUES, Isabel Pestana, Das Trincheiras com Saudade. A vida quotidiana dos militares portugueses na Primeira Guerra Mundial, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2008. Alguns erros de pormenor aqui e ali, todavia longe de obscurecerem o magnífico trabalho da autora.

MIRÃO, Cardoso, Kináni? (Quem vive?). Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918, Lisboa, Livros Horizonte, 2001. As misérias de uma estranha guerra na colónia portuguesa da África Oriental, contadas na primeira pessoa.

Leituras escolhidas, em outras línguas:

HANSON, Neil, The Unknown Soldier. The Story of the Missing of the Great War, London, Corgi Books, 2007. A reconstituição dos últimos meses de três militares desaparecidos na guerra (um inglês, um alemão e um americano), a partir das suas cartas para as respectivas famílias e de outra documentação, e um interessante estudo sobre o nascimento da homenagem ao Soldado Desconhecido.

MIQUEL, Pierre, Les poilus. La France sacrifiée, Paris, Plon, 2000. Narrativa extensa e bem detalhada sobre a Grande Guerra, na perspectiva do militar francês.

Imagem: Monumento aos Combatentes da Grande Guerra, Avenida da Liberdade, Lisboa. Foto de Jorge P. Freitas.

domingo, 5 de Outubro de 2008

Intervalo (longo...)

O projecto "Com História" tem estado parado, mas será retomado daqui a algumas semanas. Nessa altura, será um projecto a muitas mãos - assim espero!

Até breve!

quarta-feira, 19 de Março de 2008

A origem do termo "OK"


Uma expressão utilizada universalmente para referir que "está tudo bem" é constituída por duas letras: OK. Tornou-se comum a partir dos meados do século XIX nos Estados Unidos da América, mas a sua origem é incerta. Segundo os dicionários Oxford (publicados pela Oxford University Press), há quem reclame raízes escocesas, gregas, francesas ou até ameríndias (da nação norte-americana Choctaw) para OK.


Uma história curiosa sobre a expressão OK refere que terá surgido a partir do slogan presidencial do candidato Democrata (e Presidente em exercício, em busca de novo mandato) às eleições americanas de 1840, de seu nome Martin Van Buren. Era conhecido por "'Old Kinderhook" - nome da terra onde nascera, no Estado de Nova Iorque. Os seus apoiantes formaram o "OK Club", mas não conseguiram que Van Buren fosse reeleito Presidente. Perdeu para William Henry Harrison, que no entanto teve pouco tempo para saborear a vitória, pois morreu um mês depois de ser eleito.


Uma das mais plausíveis origens, no entanto, relaciona-se com a Guerra Civil Americana (1861-1865), que opôs os Estados do Norte (mais industrializados) aos Estados do Sul (cuja economia era basicamente rural e assente em mão-de-obra escrava) que saíram da União, formando os Estados Confederados da América. Cada batalhão de infantaria do Exército Federal (nortista) tinha de reportar regularmente ao comando do respectivo regimento o número de baixas que contabilizava em determinado momento: quantos mortos ou incapacitados por ferimento ou doença. Começava a lista com o número de mortos (killed), assim expresso deste modo, por exemplo: 5k (five killed, ou seja, cinco mortos). Quando um batalhão não tinha sofrido baixas, reportava 0k (zero killed). Mas depressa se tornou vulgar informar coloquialmente o comandante do regimento que um determinado batalhão estava OK, trocando o zero pela letra O - ou seja, que a unidade militar não tinha sofrido perdas e estava operacional.


Esta é uma das possíveis origens do termo OK, segundo um artigo da revista BBC History.
A imagem alusiva à Guerra Civil Americana foi retirada do site Soldier Studies: http://www.soldierstudies.org/index.php?action=webquest_2

sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

1 de Fevereiro de 1908 - O Regicídio


No dia 1 de Fevereiro de 1908, passava já das 17.00 horas, o landau (carruagem aberta, puxada por cavalos) que transportava a família real percorria o Terreiro do Paço - quero dizer, a Praça do Comércio, pois foi assim que o Marquês de Pombal rebaptizou esse espaço amplo virado ao Tejo, após a reconstrução imposta pelo Terramoto de 1755. O povo é que continua a teimar no antigo nome, passados 250 anos. Mas não nos dispersemos, voltemos à história.


Era precisamente o povo que ladeava o caminho tragado devagar pelo landau. Suficientemente devagar para que, já quase a virar para a rua do Arsenal, irrompesse de entre os curiosos um barbudo professor primário, ex-sargento de cavalaria. Exímio atirador - como de resto o era o seu alvo, o rei D. Carlos. Uma carabina novíssima, um ódio incontido. Pelo rei, pelo ditador João Franco que ele nomeara, por um sistema político que apodrecia com Portugal. Tempo para colocar o joelho em terra, apontar com precisão militar. O monarca tomba, mortalmente atingido por Manuel Buíça. Confusão, pânico, os espectadores viram turba. Outro indivíduo, a mesma indignação regicida e suicida. Alfredo Luís da Costa, também republicano, também intransigente, salta para o estribo do carro hipomóvel, desfere mais dois tiros em D. Carlos com uma Browning automática. À queima-roupa. Mas há resistência. D. Amélia, a rainha já viúva, tenta afastar o agressor, bate-lhe com um ramo de flores. Mais tiros. Quantos executores havia entre a multidão espavorida? D. Luís Filipe, segundo se crê, fere com a sua pistola o Costa, mas também é por ele atingido. Logo depois, a mortífera carabina do Buíça ceifa-o. D. Manuel, também tocado por uma bala, mas sem gravidade, ainda acode ao irmão, tenta estancar o sangue da horrível ferida na face. Em vão. A escolta a cavalo, os polícias, os soldados acodem. Há confusão. O cocheiro, ferido numa mão, faz correr os cavalos. Um inocente é morto. Julgá-lo-ão regicida, mas mais tarde - muito tarde - o engano será confirmado. Buíça e Costa são executados no local. Se havia outros republicanos prontos a imolarem-se por uma crença, esses conseguiram escapar.

O drama ainda hoje divide opiniões. O historiador deve analisá-lo longe das paixões políticas e ideológicas, com frieza. Houve vidas ceifadas, ódios despejados. O acontecimento pode ter acelerado o caminho para o fim da monarquia, mas como Fernand Braudel nos ensinou, há desenvolvimentos mais lentos, que a fúria dos homens e o seu afã revolucionário ou reformista não podem controlar nem moldar de imediato. A crise económica, o mal-estar social, as esperanças frustradas continuariam. Sob a bandeira azul e branca, tanto como sob a verde-rubra da República.
Foto: Landau do Regicídio - Paço de Vila Viçosa.