domingo, 23 de novembro de 2008

Reconstituição histórica: Saxões e Normandos

Um pequeno filme (na verdade, um slide show com banda sonora) de uma reconstituição histórica levada a cabo em Inglaterra, em Agosto de 2007: Festival of History, em Kelmarsh Hall. O "filme" foi "realizado" por mim (JorgeF).

Apresentado como sugestão para os leitores, em especial os mais jovens, que queiram produzir algo no género (e de preferência, melhor) para os seus trabalhos escolares.

video

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O senhor português das Baleares





D. Pedro Sanches foi o quinto filho legítimo do rei D. Sancho I (Sanches significava "filho de Sancho"). Já não conheceu o seu avô, D. Afonso Henriques, pois nasceu dois anos depois do falecimento daquele. Para ser mais preciso: em 23 de Fevereiro de 1187. Morreria em 2 de Junho de 1258, com a provecta idade de 71 anos.

Como todos os filhos segundos, fossem da realeza ou da nobreza, dificilmente D. Pedro podia aspirar à herança dos domínios do seu pai. Ou neste caso, do Reino. O seu irmão mais velho, D. Afonso, era o príncipe herdeiro (três irmãs haviam nascido antes de D. Afonso: D. Teresa, D. Sancha e D. Constança; na condição de mulheres, perderam o direito de sucessão em favor do irmão, mesmo mais novo). Diga-se que D. Pedro Sanches teve muitos irmãos e irmãs, e meios-irmãos e meias-irmãs. O seu pai teve 11 filhos legítimos e 8 bastardos.

Foi precisamente uma zanga entre irmãos que levou D. Pedro a envolver-se numa guerra com D. Afonso, quando este era já rei, o segundo de seu nome. Tomou partido pelas suas irmãs, que se opunham ao mano soberano. E foi junto de uma delas, D. Teresa, casada com o rei de Leão, que se refugiou. Partiu depois para Marrocos, pondo-se ao serviço do rei Almóada. A vida de aventureiro errante, ainda que girando quase sempre nas altas esferas na nobreza (mesmo de uma fé diferente da sua), era comum entre os filhos segundos de sangue real, na época.

Em 1229, D. Pedro foi para o reino de Aragão. Casou com a Condessa de Urgel ainda nesse ano, e no seguinte estava em Ibiza como conquistador, arrebatando, com o Bispo de Tarragona, a ilha aos mouros. Em 1231, por morte da mulher, torna-se Conde de Urgel. Como D. Pedro era natural de um reino estrangeiro (razão pela qual a sua mulher tinha mantido a titularidade do Condado de Urgel quando casaram), o rei Jaime I de Aragão decidiu contestar o direito de sucessão do infante português. Após algumas disputas, chegaram a acordo. D. Pedro cedeu o Condado de Urgel, e em troca recebeu, como feudo do rei de Aragão, o domínio de Maiorca, as ilhas de Ibiza e Formentera, e ainda de três castelos, dois nas ilhas Baleares e outro no continente, em Alicante. Após a sua morte, todos estes territórios voltaram à posse do rei de Aragão, pois D. Pedro Sanches teve somente dois filhos ilegítimos, os quais não podiam herdar os domínios do seu pai natural.

Imagens: Em baixo, as ilhas Baleares (foto obtida a partir do programa Google Earth). Em cima, miniatura "representando" D. Sancho I, pai de D. Pedro Sanches, e a bandeira do Reino de Portugal. Pintura e foto de JorgeF.

domingo, 16 de novembro de 2008

A barca e o barinel, esses esquecidos dos Descobrimentos



"Que navio associa à época dos Descobrimentos Portugueses?" - a esta pergunta, muitas pessoas responderiam de imediato "a caravela". E a verdade é que este tipo de embarcação, surgido durante a década de 40 do século XV, foi muito importante para as viagens que se realizaram por iniciativa do Infante D. Henrique ou, após a sua morte, por Fernão Gomes, rico mercador de Lisboa, e mais tarde por iniciativa do Príncipe Perfeito, o futuro Rei D. João II. Navio muito rápido para a época, fácil de manobrar, com um calado que permitia navegar em águas pouco profundas, a caravela estava equipada com velas triangulares - também conhecidas por velas latinas - que permitiam bolinar, ou seja, navegar com ventos contrários à rota desejada.

Mas quando a caravela surgiu, já os portugueses haviam dobrado o cabo Bojador, essa "barreira" do fim do mundo das lendas medievais. Gil Eanes derrubou esses mitos em 1434, contrariando ventos, correntes fortíssimas e os perigos de uma navegação costeira ainda sem mapas para orientação (era nessas viagens que se tiravam notas e faziam esboços para, no futuro, outros irem mais precavidos de tabelas e mapas, ainda que não menos receosos)... e fê-lo sem caravela!

Os feitos notáveis dos primeiros navegadores que ousaram enfrentar os perigos do Oceano Atlântico tiveram como veículo embarcações ainda mais frágeis e tecnicamente menos desenvolvidas que a caravela. Foi em barcas que se redescobriu o arquipélago da Madeira e se atingiram as ilhas dos Açores. Foi em barcas e barinéis que os primeiros colonos se deslocaram para os seus definitivos lares insulares. Foi a barca que permitiu a Gil Eanes, após doze anos de tentativas frustradas, ultrapassar o Bojador.

Como eram esses navios?

A barca comportava uma tripulação de 20 homens e podia ter velas quadrangulares ou latinas. Estava já equipada com leme central à ré (ou seja, na traseira do navio).

O barinel era um pouco maior que a barca e podia ter uma tripulação de 30 homens. Havia barinéis com um, dois e até três mastros. Tal como a barca, estava equipado com cesto de gávea, onde um marinheiro de visão aguda procurava, do alto, vestígios de terra firme no horizonte. A parte dianteira do navio era mais elevada - o castelo de proa. Estas características foram desenvolvidas e incorporadas na caravela, que substituiu a barca e o barinel nas viagens de exploração da costa africana a partir da década de 40 do século XV.

Não há imagens conhecidas de barinéis. As que aqui se reproduzem são reconstituições de barcas. Para saber um pouco mais sobre barcas e barinéis, sugiro a visita a este endereço (Instituto Camões):
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/navegaport/c04.html

terça-feira, 11 de novembro de 2008

90º Aniversário do Armistício - 11 de Novembro de 1918




Passam hoje 90 anos sobre o fim dos combates naquela que foi, durante algum tempo, conhecida como A Grande Guerra. Houve quem lhe chamasse "a guerra para acabar com todas as guerras". Uma geração depois, um cataclismo bélico ainda maior obrigaria a uma reclassificação: a que terminara às 11 horas de 11 de Novembro de 1918 passaria a ser conhecida por Primeira Guerra Mundial.

O mundo mudou bastante após o suicídio colectivo da Europa, ocorrido entre 1914 e 1918. Nacionalismo extremo, militarismo, convicções e preconceitos civilizacionais destruíram impérios caducos e redistribuíram os povos, por conveniência ou acaso, num novo mapa político. Nas escolas dos anos 20, enquanto eram preparados para a carnificina seguinte, os alunos passaram a aprender nomes estranhos de países como Jugoslávia ou Checoslováquia. Souberam que a Polónia já existira e fora apagada do mapa várias vezes e agora emergia de novo. E que a Rússia era vermelha (e até já não se chamava Rússia, embora em alguns quadrantes houvesse receio de entrar em pormenores quando um estudante mais afoito perguntava o que queria dizer URSS). Observando de fora do velho continente dilacerado, a jovem nação dos Estados Unidos da América emergia como a grande vencedora, assumindo até hoje a hegemonia económica mundial que a Europa deixara cair.

A consciência dos europeus tardaria a compreender este facto. Nos anos imediatos ao conflito, a dor e a estupefacção pelas tremendas perdas humanas tomou conta dos que ficaram para recordar. Foi uma geração perdida, metralhada, bombardeada, gaseada, permanentemente jovem nos esqueletos e pedaços que se espalharam pelos campos de batalha. Sucediam-se as homenagens, o culto do Soldado Desconhecido, esse mártir anónimo que podia ser um qualquer filho, pai ou irmão. E os desfiles entre lágrimas a cada 11 de Novembro, juntando familiares dos mortos e os sobreviventes da mortandade, muitos com marcas demasiado visíveis do engenho assassino do Homem nas faces ou membros, ou na falta destes.

Portugal participou na Grande Guerra entre Março de 1916 e Novembro de 1918, nas frentes de guerra do noroeste europeu (Flandres) e de África (sul de Angola e norte de Moçambique). Declarou guerra à Alemanha e alinhou com a Tríplice Entente (Grã-Bretanha, França e Rússia) e seus aliados. Não vem agora ao caso descrever os motivos dessa participação. Hoje passam 90 anos sobre o fim de uma loucura colectiva. É tempo de recordar todos os que perderam a vida ou que sofreram atrozmente entre Agosto de 1914 e Novembro de 1918. Entre eles, muitos militares portugueses. Como todos os que participaram na Grande Guerra, merecem de nós a memória de um respeito sentido e o empenho presente na preservação da paz.

Para quem quer saber mais sobre o conflito (site em inglês):
http://www.firstworldwar.com/

Leituras escolhidas, em português:

FRAGA, Luís Manuel Alves de, O Fim da Ambiguidade. A Estratégia Nacional Portuguesa de 1914-1916, Lisboa, Universitária Editora, 2001. Sobre a situação internacional e a entrada de Portugal na guerra.

HENRIQUES, Mendo Castro; LEITÃO, António Rosas, La Lys, 1918. Os Soldados Desconhecidos, Lisboa, Prefácio, 2001. A derrocada do Corpo Expedicionário Português na Flandres, face à ofensiva alemã de 9 de Abril de 1918.

MARQUES, Isabel Pestana, Das Trincheiras com Saudade. A vida quotidiana dos militares portugueses na Primeira Guerra Mundial, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2008. Alguns erros de pormenor aqui e ali, todavia longe de obscurecerem o magnífico trabalho da autora.

MIRÃO, Cardoso, Kináni? (Quem vive?). Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918, Lisboa, Livros Horizonte, 2001. As misérias de uma estranha guerra na colónia portuguesa da África Oriental, contadas na primeira pessoa.

Leituras escolhidas, em outras línguas:

HANSON, Neil, The Unknown Soldier. The Story of the Missing of the Great War, London, Corgi Books, 2007. A reconstituição dos últimos meses de três militares desaparecidos na guerra (um inglês, um alemão e um americano), a partir das suas cartas para as respectivas famílias e de outra documentação, e um interessante estudo sobre o nascimento da homenagem ao Soldado Desconhecido.

MIQUEL, Pierre, Les poilus. La France sacrifiée, Paris, Plon, 2000. Narrativa extensa e bem detalhada sobre a Grande Guerra, na perspectiva do militar francês.

Imagem: Monumento aos Combatentes da Grande Guerra, Avenida da Liberdade, Lisboa. Foto de JorgeF.