sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

1 de Fevereiro de 1908 - O Regicídio


No dia 1 de Fevereiro de 1908, passava já das 17.00 horas, o landau (carruagem aberta, puxada por cavalos) que transportava a família real percorria o Terreiro do Paço - quero dizer, a Praça do Comércio, pois foi assim que o Marquês de Pombal rebaptizou esse espaço amplo virado ao Tejo, após a reconstrução imposta pelo Terramoto de 1755. O povo é que continua a teimar no antigo nome, passados 250 anos. Mas não nos dispersemos, voltemos à história.


Era precisamente o povo que ladeava o caminho tragado devagar pelo landau. Suficientemente devagar para que, já quase a virar para a rua do Arsenal, irrompesse de entre os curiosos um barbudo professor primário, ex-sargento de cavalaria. Exímio atirador - como de resto o era o seu alvo, o rei D. Carlos. Uma carabina novíssima, um ódio incontido. Pelo rei, pelo ditador João Franco que ele nomeara, por um sistema político que apodrecia com Portugal. Tempo para colocar o joelho em terra, apontar com precisão militar. O monarca tomba, mortalmente atingido por Manuel Buíça. Confusão, pânico, os espectadores viram turba. Outro indivíduo, a mesma indignação regicida e suicida. Alfredo Luís da Costa, também republicano, também intransigente, salta para o estribo do carro hipomóvel, desfere mais dois tiros em D. Carlos com uma Browning automática. À queima-roupa. Mas há resistência. D. Amélia, a rainha já viúva, tenta afastar o agressor, bate-lhe com um ramo de flores. Mais tiros. Quantos executores havia entre a multidão espavorida? D. Luís Filipe, segundo se crê, fere com a sua pistola o Costa, mas também é por ele atingido. Logo depois, a mortífera carabina do Buíça ceifa-o. D. Manuel, também tocado por uma bala, mas sem gravidade, ainda acode ao irmão, tenta estancar o sangue da horrível ferida na face. Em vão. A escolta a cavalo, os polícias, os soldados acodem. Há confusão. O cocheiro, ferido numa mão, faz correr os cavalos. Um inocente é morto. Julgá-lo-ão regicida, mas mais tarde - muito tarde - o engano será confirmado. Buíça e Costa são executados no local. Se havia outros republicanos prontos a imolarem-se por uma crença, esses conseguiram escapar.

O drama ainda hoje divide opiniões. O historiador deve analisá-lo longe das paixões políticas e ideológicas, com frieza. Houve vidas ceifadas, ódios despejados. O acontecimento pode ter acelerado o caminho para o fim da monarquia, mas como Fernand Braudel nos ensinou, há desenvolvimentos mais lentos, que a fúria dos homens e o seu afã revolucionário ou reformista não podem controlar nem moldar de imediato. A crise económica, o mal-estar social, as esperanças frustradas continuariam. Sob a bandeira azul e branca, tanto como sob a verde-rubra da República.
Foto: Landau do Regicídio - Paço de Vila Viçosa.

1 comentário:

Miguel disse...

Fosse com Buíça, fosse com Costa, fosse com outro qualquer, a tiro, golpe de estado, revolução, fosse como fosse, aquela monarquia tinha o tempo contado à muito. D. Carlos: o homem errado no lugar errado no tempo errado. Mais lhe valeria que fora um bom burguês pintando nas horas vagas, e pescando peixes curiosos como passatempo.