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domingo, 14 de dezembro de 2008

Hino da Carta (1834-1910)


O hino português é um dos símbolos nacionais. O hino actual, A Portuguesa, foi composto em 1890 como canção patriótica, na sequência do Ultimato britânico (por causa da questão do "Mapa Cor de Rosa"). A início cantado por todos, depressa foi adoptado pelos republicanos, que fariam da composição de Alfredo Keil, com letra de Henrique Lopes de Mendonça, hino nacional após a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910.

O que poucos portugueses conhecerão é o hino do período da Monarquia Constitucional. Composto por D. Pedro IV, que o designou "Hymno da Carta", em alusão à Carta Constitucional por ele outorgada em 1826, foi o Hino Português entre Março de 1834 e Outubro de 1910.

A letra era a seguinte:

Ó Pátria, Ó Rei, Ó Povo,
Ama a tua Religião
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

Ó com quanto desafogo
Na comum agitação
Dá vigor às almas todas
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

Venturosos nós seremos
Em perfeita união
Tendo sempre em vista todos
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

A verdade não se ofusca
O Rei não se engana, não,
Proclamemos Portugueses
Divinal Constituição

(Coro)
Viva, viva, viva ó Rei
Viva a Santa Religião
Vivam Lusos valorosos
A feliz Constituição
A feliz Constituição

A música do Hino da Carta é reproduzida neste pequeno vídeo de minha autoria (JorgeF).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

1 de Fevereiro de 1908 - O Regicídio


No dia 1 de Fevereiro de 1908, passava já das 17.00 horas, o landau (carruagem aberta, puxada por cavalos) que transportava a família real percorria o Terreiro do Paço - quero dizer, a Praça do Comércio, pois foi assim que o Marquês de Pombal rebaptizou esse espaço amplo virado ao Tejo, após a reconstrução imposta pelo Terramoto de 1755. O povo é que continua a teimar no antigo nome, passados 250 anos. Mas não nos dispersemos, voltemos à história.


Era precisamente o povo que ladeava o caminho tragado devagar pelo landau. Suficientemente devagar para que, já quase a virar para a rua do Arsenal, irrompesse de entre os curiosos um barbudo professor primário, ex-sargento de cavalaria. Exímio atirador - como de resto o era o seu alvo, o rei D. Carlos. Uma carabina novíssima, um ódio incontido. Pelo rei, pelo ditador João Franco que ele nomeara, por um sistema político que apodrecia com Portugal. Tempo para colocar o joelho em terra, apontar com precisão militar. O monarca tomba, mortalmente atingido por Manuel Buíça. Confusão, pânico, os espectadores viram turba. Outro indivíduo, a mesma indignação regicida e suicida. Alfredo Luís da Costa, também republicano, também intransigente, salta para o estribo do carro hipomóvel, desfere mais dois tiros em D. Carlos com uma Browning automática. À queima-roupa. Mas há resistência. D. Amélia, a rainha já viúva, tenta afastar o agressor, bate-lhe com um ramo de flores. Mais tiros. Quantos executores havia entre a multidão espavorida? D. Luís Filipe, segundo se crê, fere com a sua pistola o Costa, mas também é por ele atingido. Logo depois, a mortífera carabina do Buíça ceifa-o. D. Manuel, também tocado por uma bala, mas sem gravidade, ainda acode ao irmão, tenta estancar o sangue da horrível ferida na face. Em vão. A escolta a cavalo, os polícias, os soldados acodem. Há confusão. O cocheiro, ferido numa mão, faz correr os cavalos. Um inocente é morto. Julgá-lo-ão regicida, mas mais tarde - muito tarde - o engano será confirmado. Buíça e Costa são executados no local. Se havia outros republicanos prontos a imolarem-se por uma crença, esses conseguiram escapar.

O drama ainda hoje divide opiniões. O historiador deve analisá-lo longe das paixões políticas e ideológicas, com frieza. Houve vidas ceifadas, ódios despejados. O acontecimento pode ter acelerado o caminho para o fim da monarquia, mas como Fernand Braudel nos ensinou, há desenvolvimentos mais lentos, que a fúria dos homens e o seu afã revolucionário ou reformista não podem controlar nem moldar de imediato. A crise económica, o mal-estar social, as esperanças frustradas continuariam. Sob a bandeira azul e branca, tanto como sob a verde-rubra da República.
Foto: Landau do Regicídio - Paço de Vila Viçosa.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

31 de Janeiro de 1891









Foi a primeira tentativa de implantar o regime republicano em Portugal. Aconteceu no Porto, estava a humilhação do Ultimato britânico - ocorrida um ano antes - ainda bem fresca. O nacionalismo exacerbado dos portugueses de então fora aproveitado pela oposição republicana, mobilizando ruidosos protestos contra a Inglaterra, essa velha aliada que se revelara, afinal, pérfida e traiçoeira. Mas também havia remoques contra os partidos monárquicos (o partido Regenerador e o partido Progressista), que caminhavam para o esgotamento do rotativismo do poder, continuando o país a afundar-se na crise económica. E muito descontentamento, enfim, contra o rei D. Carlos, entronado em Dezembro de 1889, um mês antes da "vergonhosa cedência" perante o Ultimato. Começava mal o reinado do penúltimo monarca de Portugal.

Mas faltava, também, unidade ao Partido Republicano Português (PRP), dividido entre moderados e radicais. Fazia muito barulho, cavalgara a onda de indignação de 1890, mas a base social de apoio era, ainda, reduzida: essencialmente de classe média e urbana, uma minoria num país de 80% de analfabetos e quase a mesma percentagem de população rural.

O "31 de Janeiro" foi o produto de um certo aventureirismo republicano radical. Instigado por jornalistas e advogados ligados à Maçonaria, o golpe foi levado a cabo por soldados, sargentos e uns poucos oficiais do Regimento de Infantaria 10, mas não conseguiu mobilizar a maior parte da oficialidade e da própria população civil. Começou às 4 horas da madrugada. Pelas 10.30 da manhã estava tudo terminado, após um tiroteio cerrado sobre o edifício dos Paços do Concelho do Porto e a rendição dos revoltosos perante o cerco das unidades militares fiéis à monarquia. Um fracasso comprometedor para o PRP. Apesar de tudo, durante três horas o Porto viveu em República. Tanto foi o tempo que medeou entre a declaração do novo regime, o hastear da bandeira verde-rubra, o entoar d' A Portuguesa, e a constatação de que, afinal, não havia um país para governar... ainda.

Gravuras: Proclamação da República no Porto; Bombardeamento dos Paços do Concelho.